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Sobreiro

O sobreiro, Quercus suber, deve o seu nome científico aos romanos, que lhe chamavam suber. É uma árvore de porte médio (menos de 20m de altura) com uma copa ampla. As suas folhas são persistentes, de cor verde-escura, brilhantes nas faces superiores e acinzentadas nas inferiores. Têm uma forma oval, com margem inteira ou ligeiramente serrada ou dentada. O fruto do sobreiro é a bolota, que tem uma forma oval-oblonga e um pedúnculo curto.

O tronco tem uma casca espessa e suberosa, conhecida por cortiça.

É muito intolerante ao ensombramento, prefere climas suaves e luminosos com humidade atmosférica elevada. Suporta bem todos os tipos de solos excepto os calcários ou os solos muito compactos.

Propaga-se por semente, no entanto, as sementes perdem rapidamente a capacidade de germinar.

O sobreiro existe em todo o nosso país, espontaneamente, semeado ou plantado. Nos dois últimos casos forma povoamentos denominados montados, onde os sobreiros existem quase sempre em consociação com uma cultura agrícola ou uma pastagem.

Sobreiros

 

Utilização

Até há alguns anos, a produção de fruto (bolotas) nos montados era importante para engorda de varas de porcos, que eram alimentados em montanheira, isto é, mantendo-se em liberdade no montado, prática que caiu em desuso mas que tem tido, em anos recentes, alguma recuperação. As folhas mais baixas ou deixadas no solo como resultado de podas ou desbastes, servem como complemento de alimentação para o gado nas épocas do ano em que o pasto escasseia.

A madeira é muito dura e compacta, difícil de trabalhar, tendo pouco valor para carpintaria e marcenaria. É no entanto um óptimo combustível, sendo muito utilizada nas lareiras.

No entanto, a sua principal utilização é a produção de cortiça, que é o único produto do qual Portugal é o primeiro produtor mundial.

A cortiça proporciona ao sobreiro uma protecção contra o fogo, permitindo-lhe frequentemente sobreviver a incêndios que matam outras árvores.

Numa época em que se analisam estratégias de valorização da rolha de cortiça natural face à ameaça das rolhas sintéticas, convidamo-lo a fazer uma viagem pelo processo de transformação da cortiça, desde a sua extracção do sobreiro até à obtenção da rolha.



Cortiça - do montado à rolha

Vários tipos de rolhas4A principal utilização da cortiça é a produção de rolhas naturais. No entanto, do processo produtivo deste tipo de rolhas resultam vários sub-produtos, que alimentam as indústrias de granulados de cortiça, os quais são a base de inúmeras utilizações, desde a produção de rolhas aglomeradas, rolhas técnicas, rolhas de champanhe até ao fabrico de revestimentos de superfícies, soalhos, placas isoladoras, juntas, solas de sandálias ou até mesmo na recolha de petróleo derramado.

 

Classificação da cortiça

A classificação da cortiça está subjacente a todo o seu processo de transformação. Numa primeira fase, essa classificação baseia-se na qualidade e no calibre das pranchas, enquanto que numa fase posterior se centra na qualidade das rolhas.

A qualidade das pranchas é avaliada atendendo à porosidade, defeitos, aspecto da barriga e da costa (a costa é a parte mais escura e exterior da prancha) e ao relevo da costa. Assim, as pranchas de 1ª qualidade caracterizam-se por uma grande homogeneidade da barriga e costa, menor porosidade e ausência de defeitos.

O calibre traduz a espessura da prancha, a qual é medida em “linhas” (1linha=2,256 mm). A cortiça com 9 anos de crescimento tem normalmente entre 6 e 24 linhas (13.5 a 54 mm).

As rolhas são também qualificadas de acordo com padrões de homogeneidade.

 

Extracção da cortiça do sobreiro

O descortiçamento consiste na extracção, normalmente manual, da cortiça dos sobreiros, sendo realizada entre os meses de Maio e Setembro, que correspondem ao seu período de maior crescimento.

A realização do descortiçamento encontra-se regulamentada pelo Decreto Lei N.º 169/2001, que estabelece medidas de protecção ao sobreiro e à azinheira. Segundo este, o primeiro descortiçamento (chamado desbóia) ocorre em sobreiros cujo perímetro do tronco, sobre a casca, medido a 1,30m do solo (pap - perímetro altura do peito) exceda os 70 cm e até uma altura máxima de duas vezes esse perímetro. Tal verifica-se por volta dos 18 a 27 anos. A cortiça removida nesta tiragem – cortiça virgem ou branca – é porosa, fendilhada e contorcida, pouco homogénea, pelo que se destina à trituração para a produção dos granulados.

Os descortiçamentos posteriores sucedem-se com um intervalo de pelo menos 9 anos. Assim, do segundo descortiçamento (em sobreiros com cerca de 36 anos), resulta a cortiça secundeira, cujas características morfológicas não são adequadas para a produção de rolhas, destinando-se igualmente à trituração. Neste segundo descortiçamento a altura máxima será de 2,5 vezes o pap.

Pilha de CortiçaA partir do terceiro descortiçamento obtém-se a cortiça amadia ou de reprodução, que se destina primordialmente ao fabrico das rolhas. A altura de descortiçamento na 3ª tiragem e subsequentes é 3 vezes o pap. Seguem-se cerca de 10-15 ciclos de extracção de cortiça (periodicamente de 9 em 9 anos), geralmente até aos 150 ou 200 anos de idade do sobreiro.

A comercialização da cortiça pode ser feita na árvore ou na pilha, sendo usual após o descortiçamento o empilhamento das pranchas de cortiça removidas. Estas pilhas podem atingir cerca de 50 m de comprimento.

 

Preparação da cortiça

Após a extracção, a cortiça passa por um período de cerca de 6 meses de secagem ao ar, até perder o “verde”, que corresponde a manchas translúcidas devidas à humidade interna da cortiça.

Traçamento das pranchas de cortiçaNa fábrica é sujeita à
cozedura em água a ferver durante cerca de 1 hora. Esta operação destina-se à desinfecção da cortiça, extracção de substâncias fenólicas (taninos), aumento da sua espessura, melhoria da qualidade e ainda ao aplanar e amaciar das pranchas, tornado-as mais flexíveis para os tratamentos seguintes. Segue-se um novo período de repouso (secagem ao ar) durante 2 a 4 semanas, após o qual se processa o traçamento e selecção das pranchas por classes de qualidade e calibre. O traçamento consiste na remoção dos bordos e fragmentação da prancha caso esta apresente diferentes classes de qualidade ou calibre.

O final do processamento da cortiça nas indústrias preparadoras coincide com a constituição dos fardos, usando moldes ou gaiolas metálicas.

 

Produção das rolhas de cortiça natural (transformação por simples corte ou talha)

Já nas instalações da indústria rolheira segue-se a rabaneação, que é uma operação manual ou mecânica que consiste no corte das pranchas em tiras, ou rabanadas, a partir das quais se vão vazar as rolhas, numa operação subsequente, desFabrico de rolhasignada por brocagem. A espessura da rabanada vai condicionar o diâmetro das rolhas, sendo ainda importante referir que a rolha é brocada no sentido perpendicular ao comprimento da rabanada (sentido do crescimento da cortiça), de modo a que os canais lenticulares fiquem perpendiculares ao comprimento da rolha e portanto ao sentido de vedação das garrafas. No caso da brocagem mecânica é necessário fazer uma posterior selecção das rolhas, de forma a eliminar as rolhas que ficaram mal brocadas, designadas por “lenhas” ou “cavacos”.

Seguem-se as operações de
rectificação da rolha, nomeadamente o ponçamento, para a correcção do seu diâmetro e o topejamento destinado ao aprumo do comprimento de acordo com o pretendido. Os comprimentos mais usuais são 38, 45, 49 e 54 mm e o diâmetro de 24 mm, para um gargalo de garrafa de cerca de 18 mm. É ainda frequente a realização de operações de escolha das rolhas de modo a separá-las por classes de qualidade de acordo com padrões homogéneos, segregando as rolhas com defeitos.

Posteriormente, as rolhas podem ser sujeitas a inúmeros
tratamentos complementares, que se iniciam com as lavagens para eliminação de impurezas, o branqueamento com peróxido de hidrogénio e a secagem em estufa. Poderá procede-se a uma nova escolha manual e/ou mecânica das rolhas de acordo com os requisitos estabelecidos com os clientes. É ainda usual a aplicação do revestimento colorido e o tratamento com parafina ou silicone, para facilitar a sua introdução no gargalo das garrafas, assim como a marcação das rolhas, a tinta ou a fogo.

Antes de embalagem dos lotes, deverão ser realizados testes de qualidade e resistência das rolhas para certificar que o lote produzido cumpre o acordado com o cliente.

 

Aproveitamento de sub-produtos

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